Consórcio de Carlos Tavares insiste na Azores Airlines

Os empresários Carlos Tavares, Tiago Raiano, Paulo Pereira e Nuno Pereira apresentaram, através da Atlantic Connect Group, uma proposta de 17 milhões de euros para adquirir 85% da Azores Airlines.
Os quatro empresários sublinham, em comunicado, “a coerência e clareza” da proposta, assumindo que a comunicação decorrerá “a uma só voz” e que o primeiro foco será o diálogo com os colaboradores. Afirmam também estar disponíveis para prestar todos os esclarecimentos ao júri do processo de privatização, mantendo “reserva pública adequada” num concurso que descrevem como “rigoroso, isento e célere”.
A Azores Airlines é a companhia aérea do grupo Sata responsável pelas ligações internacionais e pelas rotas domésticas de maior raio, assegurando conexões entre os Açores, o continente português, a Madeira, a América do Norte e vários destinos europeus. Opera com frota de médio curso, complementando a Sata Air Açores — dedicada aos voos inter-ilhas — e desempenha um papel essencial na mobilidade de residentes, no turismo e na continuidade territorial da Região Autónoma, sendo por isso considerada um ativo estratégico para Portugal.
A reestruturação da Sata foi viabilizada por uma injeção de fundos públicos aprovada por Bruxelas durante a pandemia, num montante superior a 450 milhões de euros, destinada a garantir liquidez, reduzir dívida e evitar a rutura operacional do grupo. Esse apoio ficou sujeito a condições rigorosas, entre as quais a privatização da Azores Airlines e a implementação de medidas de eficiência. O Governo Regional dos Açores pediu a prorrogação do prazo para a reestruturação da Sata, até ao final do próximo ano. A Comissão Europeia reiterou que acompanha o processo “de muito perto” e que mantém “estreito contacto com Portugal” para assegurar o cumprimento integral das obrigações assumidas no plano de reestruturação autorizado.
O processo de privatização da Azores Airlines iniciou-se em 2023. O processo de privatização da Azores Airlines começou em 2023, após a exigência de Bruxelas para aprovar os auxílios à Sata. A Atlantic Connect Group apresentou primeiro 5 milhões de euros por 76% e, em 2025, subiu a oferta para 15,2 milhões pela mesma posição. A proposta final elevou o valor para 17 milhões, aumentando a participação para 85%. As negociações intensificaram-se em 2024 e entraram agora na fase final de avaliação pelo júri do concurso.
O Atlantic Connect Group sustenta que a avaliação apresentada incorpora a situação financeira atual da transportadora e a visão estratégica dos investidores, orientada para a sustentabilidade e para a consolidação operacional da empresa, vista como um ativo relevante para Portugal e para a Região Autónoma dos Açores.
O último relatório e contas da Sata Internacional | Azores Airlines, relativo a 2024, reforça o enquadramento: o prejuízo ascendeu a 71,19 milhões de euros, um agravamento substancial face aos 26 milhões registados no ano anterior.
O resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (EBITDA, no acrónimo em inglês) passou de 21,5 milhões de euros para menos 691 mil. A dívida líquida subiu para 422 milhões de euros, acima dos 378 milhões registados em 2023.
Nas operações, o transporte de passageiros aumentou para 1,6 milhões, mantendo a taxa de ocupação nos 82%, enquanto o número de voos cresceu de 9.700 para 11.705. Os gastos com combustível atingiram 85,6 milhões de euros, representando 25% dos custos, acima dos 76,9 milhões registados em 2023.

Ryanair a voar dos Açores
A proposta surge poucos dias depois de a Ryanair anunciar, a 20 de novembro, o cancelamento de todas as ligações para os Açores a partir de 29 de março. A transportadora irlandesa justificou a decisão com as “elevadas taxas aeroportuárias” definidas pela ANA – Aeroportos de Portugal.
A companhia acusou o Governo português de “inação”, lembrando que as taxas de navegação aérea “aumentaram 120% após a pandemia de covid-19”, juntamente com a introdução de uma taxa de viagem de dois euros, em sentido oposto ao de outros Estados da União Europeia. Criticou ainda o “monopólio” da ANA e a inexistência de um plano para reforçar ligações de baixo custo com os Açores. Argumentou que a ausência de concorrência permite à concessionária “obter lucros monopolistas” e impor aumentos “sem penalização”. Defendeu que o Governo deve “intervir” e assegurar que os aeroportos servem o interesse público e não um “monopólio aeroportuário francês”.
Tanto a ANA como o Governo manifestaram surpresa com decisão da Ryanair.
Fonte oficial da ANA disse à Lusa que as recentes conversas com a companhia aérea estavam a ser orientadas no sentido de se “aumentar” a oferta e que as taxas aeroportuárias nos Açores se mantiveram inalteradas em 2025, e que da parte da ANA não existiu proposta para que estas aumentassem em 2026.
O ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, afirmou, que o Governo não vai aceitar “ultimatos nem ameaças” por parte da Ryanair. Miguel Pinto Luz adiantou que a Ryanair “já nos habituou” a “atitudes e afirmações fora das regras normais de funcionamento entre instituições”, sublinhando que do lado do Governo “não vai ter a mesma resposta”.