Governo dos Países Baixos suspende intervenção na Nexperia

O Governo dos Países Baixos anunciou esta quarta-feira que suspende a sua intervenção na Nexperia depois de “negociações construtivas” com a China.

O ministro da Economia neerlandês, Vincent Karremans, referiu que a decisão foi um “gesto de boa-vontade”, como transcrito pela agência noticiosa Reuters.

O governo neerlandês tinha anunciado a entrada na Nexperia, em outubro, invocando de forma “altamente excecional” a lei ‘Availability of Goods Act’, que numa tradução livre seria a ‘Lei da Disponibilidade de Bens’, devido a “sinais agudos de graves deficiências de governação” na empresa e por temer também a transferência de tecnologia para a empresa-mãe chinesa a Wingtech.

O governo dos Países Baixos alegou também que a “perda destas capacidades poderia representar um risco para a segurança económica holandesa e europeia”. Os chips da Nexperia são utilizados em várias áreas como por exemplo os computadores, automóveis elétricos e centros de dados de inteligência artificial.

A decisão do executivo neerlandês acabou por gerar críticas por parte da Wingtech. A organização, citada pela Reuters, considerou que a intervenção era uma “interferência excessiva motivada por um enviesamento geopolítico”.

Já um porta-voz da Nexperia, citado pelo canal britânico BBC, referiu que a empresa “cumpria todas as leis e regulamentos existentes, controlos de exportação e regimes de sanções”.

China impõe sanções

A decisão do governo dos Países Baixos de adquirir a Nexperia acabou também por desagradar as autoridades chinesas levando a que a China toma-se a decisão de impor uma proibição de exportação à Nexperia, como avançou o site NL Times.

O governo chinês considerou que a aquisição da Nexperia, pelo governo dos Países Baixos, era “extraordinariamente vergonhosa”, de acordo com o Global Times [transcrito pelo NL Times], que é controlado pelo Partido Comunista da China.

“Ninguém deve subestimar a determinação e a capacidade da China para defender os seus interesses. Isto não deve ser visto como um conflito entre o governo dos Países Baixos e uma empresa chinesa — é uma violação flagrante das regras internacionais por parte dos Países Baixos”, salienta o governo chinês, de acordo com o Global Times.

Tribunal afastou CEO chinês

De acordo com um documento consultado pela Reuters uma decisão do tribunal comercial de Amesterdão, de 7 de outubro, revelou que o tribunal decidiu suspender o CEO da Wingtech, Zhang Xuezheng, do seu cargo de diretor executivo da Nexperia depois de ter encontrado “razões bem fundamentadas para duvidar” que a empresa estivesse a adotar uma política de gestão ou ações corretas de acordo com a lei civil dos Países Baixos.

A Reuters adianta também que esta decisão do tribunal levou a que a Wingtech indica-se Guido Dierick para o cargo ocupado por Zhang Xuezheng, transferindo o controlo de quase todas as ações da Nexperia para um advogado dos Países Baixos responsável pela gestão. Esta decisão acabou por ter o apoio do Estado e do conselho laboral da empresa, salienta a agência noticiosa.

Unidade chinesa da Nexperia retomou venda de chips para distribuidores locais

Ainda em outubro foi reportado que a unidade chinesa da Nexperia já teria retomado a venda de chips para distribuidores locais, como avançado pela agência noticiosa Reuters.

De acordo com a Reuters a retoma da venda de chips, pela unidade chinesa da Nexperia, ficou limitada ao comércio interno, e que existiam orientações no sentido de todas a vendas aos distribuidores serem liquidadas em yuan chinês, quando no período anterior à proibição se realizavam em moedas estrangeiras.

Existirão também instruções por parte da unidade chinesa da Nexperia para que os distribuidores também façam as transações com os seus clientes apenas em yuan com o objetivo de estabilizar o fornecimento na China e operar de forma mais independente da sede neerlandesa da Nexperia, avançou a Reuters.

Fabricante neerlandesa decidiu suspender fornecimento de wafers

Por outro lado a fabricante neerlandesa de chips Nexperia decidiu suspender o fornecimento de wafers para a sua fábrica de montagem na China, de acordo com uma carta endereçada aos seus clientes a que a agência Reuters teve acesso.

A carta, datada de 29 de outubro e assinada pelo CEO interino da Nexperia, Stefan Tilger, adiantou que a empresa impôs a suspensão do fornecimento da sua fábrica situada em Dongguan, na província de Guangdong, no sul da China, com impacto a partir de 26 de outubro. É “uma consequência direta da recente falha da administração local em cumprir os termos de pagamento contratuais acordados”, referiu a missiva.

“Embora tenhamos mantido as remessas pelo maior tempo comercialmente viável, continuar o fluxo atual de fornecimento do nossos front-end não é mais justificável”, dizia a carta. “A menos que essas obrigações contratuais sejam totalmente satisfeitas, não podemos retomar o fornecimento de wafer. A Nexperia está a desenvolver soluções alternativas para garantir que o fornecimento continue.”

Instabilidade afetou indústria automóvel

Esta instabilidade que rodeou a Nexperia acabou por afetar a atividade de algumas empresas. Entre elas a Autoeuropa. A empresa portuguesa admitiu que poderia vir a ser afetada pela falta de semicondutores devido a um problema com o fornecimento da empresa Nexperia, acrescentando também que o grupo Volkswagen constituiu uma “task-force” para acompanhar a situação.

“Existe um problema de fornecimento de semicondutores da empresa Nexperia que poderá afetar toda a indústria automóvel europeia, incluindo naturalmente o grupo Volkswagen”, admitiu a Autoeuropa numa comunicação interna da empresa a que a agência Lusa teve acesso.

Nessa comunicação foi ainda referido, que até aquela data, “a Volkswagen Autoeuropa não foi afetada”, sublinhando que existia um “contacto próximo com a “task-force” que o Grupo Volkswagen criou para identificar riscos da eventual quebra de fornecimento de módulos com peças da Nexperia, de modo a agir rapidamente caso seja necessário tomar medidas”.