Maximilian Kunkel, Chief Investment Officer – Global Family and Institutional Wealth esteve num encontro com jornalistas na sede do UBS em Lisboa com Carlos Santos Lima, UBS Country Head Portugal, a falar da visão estratégica do banco suíço para o próximo ano.
Na sua intervenção o responsável começou por dizer que “primeiro de tudo, olhando para o ano que vem, eu diria que são realmente três as perguntas importantes. A primeira pergunta é, será que o investimento na IA vai continuar? A segunda pergunta é, como os governos vão lidar com o aumento da dívida? E a terceira pergunta é, como a política e a geopolítica vão mudar os mercados no ano que vem?”
“Nos dias de hoje quando se olha para o mercado de ações globais a IT e os serviços de comunicação registam um aumento de 36%. Então, para ter alguma ideia da direção do mercado global, precisamos falar da tecnologia. Mas se olharmos para os últimos dois anos, o que se destaca é o investimento na IA. O crescimento dos investimentos que vimos nesse setor superaram as expectativas três vezes”, defende Max Kunkel que acrescenta “então a pergunta é se pode o boom da infraestrutura da IA continuar? E a nossa opinião é que sim”.
“Nós pensamos que, cumulativamente, até 2030, veremos mais de 4 triliões de dólares de investimentos adicionais em IA. No ano de 2030, estimamos 1,3 triliões de investimentos na infraestrutura da AI”, referiu o CIO do Global Family and Institutional Wealth do UBS.
De onde vem esse crescimento? “Quando se trata da procura de chatbots, pensamos que os investimentos que, até agora, foram feitos e anunciados são mais do que suficientes para responder à procura. Mas pensamos que a próxima onda de procura vai principalmente vir da Agentic AI e da Physical AI. Em particular, estamos a falar de áreas como a robótica e o carro autónomo”, refere Max Kunkel.
O responsável da UBS sublinhou que “olhando para os desenvolvimentos do mercado ao longo das últimas, eu diria, 4 semanas ou mais, vimos uma grande mudança em termos do que o mercado está focado. Mudou do Capex [despesa de investimento] para os Cash Flows”. Isto é, deixou de se olhar apenas para o investimento em infraestruturas.
“Recorde-se, por exemplo, os desenvolvimentos de alguns dos maiores hyperscalers (hiperescaladores) após o anúncio de maiores investimentos, de certa forma, significa que precisamos de começar a mudar a nossa estratégia de investimento em IA, deixar de se concentrar apenas em infraestruturas, semicondutores, cloud, etc”, disse.
Max Kunkel defendeu ainda que os centros de dados, hoje, fazem parte de cerca de 4% da procura de eletricidade nos Estados Unidos. E isso poderá ser mais ou menos o dobro em 2035, cerca de 9%. Isto significa que “outros setores provavelmente vão beneficiar” por causa de toda a cadeia de valor dos data centers. Os centros de dados consomem energia, e isso vai beneficiar desde as commodities (como o cobre) até às empresas de utilities (serviços públicos).
O banco suíço identifica quatro áreas de retorno do investimento em inteligência artificial: investigação e desenvolvimento (I&D), publicidade, programação (coding) e serviço ao cliente.
Há bolha de IA? UBS acha que não
Existe um debate significativo entre especialistas financeiros sobre se o atual crescimento do mercado de Inteligência Artificial (IA) constitui uma bolha especulativa. Muitas empresas de IA apresentam avaliações (valuations) consideradas desproporcionais por alguns analistas, levantando preocupações sobre euforia excessiva no mercado.
Sobre se há uma bolha de IA no mercado, Max Kunkel desmestifica. “No mercado bolsista dos EUA, neste momento o índice S&P 500 está a gerar 23 vezes mais retorno. Mas se dividir o S&P 500 em duas partes, tem, de um lado, as 7 grandes empresas impulsionadas pela tecnologia, também frequentemente chamadas de as 7 Magníficas, e depois tem as 493 empresas não tão magníficas. As 7 empresas magníficas estão atualmente a gerar 30 vezes mais retorno em comparação com os últimos 5 anos. Comparativamente à bolha que tivemos em 1999 e 2000, quando o Nasdaq gerava mais de 50 vezes, isto ainda é bastante baixo. Depois as 493 empresas não tão magníficas estão a gerar 20 vezes mais retorno aos acionistas”, disse lembrando que o S&P 500 não é o mesmo de há 40 anos.
“O S&P 500 evoluiu com o tempo, a sua composição mudou substancialmente e agora tem uma valorização muito elevada, de empresas que estão a crescer rapidamente, com margens elevadas, que são escaláveis, e que comandam valorizações mais elevadas. E, como resultado, também o índice total pode ter valorizações mais elevadas”, referiu.
Para o gestor o que é importante reter é que as valorizações têm geralmente um poder muito limitado para os retornos de 12 meses.
“A segunda coisa sobre as bolhas é que o sentimento está muito mau neste momento, está bastante pessimista”, disse.
“A única coisa que faz as bolhas tornarem-se evidentes para todos, e o que as faz explodir, são aumentos significativos em taxas de juros e não estamos vendo isso”, defendeu.
Taxas de juros e lucros das cotadas são o que interessa para os investidores
Para os investidores o que importa são as taxas de juro e o crescimento dos lucros das empresas. “O resto é ruído”, referiu Maximilian Kunkel.
“Pensando em valorizações, ainda estamos no meio de um ciclo global de corte de juros que não víamos desde o colapso do Lehman Brothers. Acreditamos que os bancos centrais, fora dos EUA, ainda adotarão uma postura mais branda (dovish ou política monetária mais expansionista), e acreditamos que a Fed continuará com o ciclo de cortes”, disse Max Kunkel que acredita que a Fed vai reduzir os juros em 25 pontos base já em dezembro. “Esperamos mais dois cortes de 25 pontos de base cada até o fim do primeiro trimestre do próximo ano”, sublinhou.
“Esperamos mais dois cortes de 25 pontos de base cada até o fim do primeiro trimestre do próximo ano”, sublinhou”.
Por outro lado, “há o crescimento dos lucros, por exemplo, na última quarta-feira nos EUA, viu-se que seis dos 11 setores do S&P apresentaram crescimento de dois dígitos de lucros. Portanto, isto já não é apenas tecnologia, os lucros das empresas estão não só a crescer, mas a alargar-se a mais setores”, disse.
“Acreditamos que, após três anos de estagnação, a Europa irá registar um crescimento dos lucros de 7% no próximo ano e um crescimento dos lucros de 18% em 2027. Acreditamos que a tecnologia chinesa, por exemplo, irá registar um crescimento dos lucros de 37% no próximo ano, e isto considerando avaliações adequadas”, defendeu.
Outro tema é o endividamento, quando olhamos para a dívida como um percentagem da capitalização do mercado. De acordo com o FINRA, Financial Industry Regulatory Authority, organização de autorregulação não governamental nos EUA, “nós estamos atualmente em 1,7%. O ponto baixo nos últimos 30 anos foi de 1,5%. O ponto alto foi de 2,6%, curiosamente no ano 2000″. Mas não estamos a ver uma euforia de aumento do endividamento.
Max Kunkel considera que na Europa o Banco Central Europeu vai manter-se em suspenso no que toca à subida de juros. Não antevendo uma subida dos juros durante o ano de 2026. A inflação na Eurozona vai cair abaixo de 2%, diz.
Já para a Fed antevê queda dos juros, porque apesar das tarifas, a inflação está a cair, de acordo com a maioria dos dados norte-americanos. “Os salários estão a subir e há indicações muito claras de que o mercado de trabalho nos EUA está enfraquecer, o que é um bom sinal para a descida dos juros. Por outro lado a política monetária nos EUA pode estar menos restritiva mas ainda é restritiva”, disse o especialista.
“Falamos sobre outras áreas que se beneficiariam com os avanços da IA, e mencionei a eletrificação, mas a outra área em que estamos muito otimistas é tudo o que tem a ver com saúde ou, tematicamente, poderíamos expressar como longevidade. Pois muitos investidores com uma visão de longo prazo, têm dois setores nos quais se concentram, tecnologia e saúde. Porque são dois setores de crescimento estrutural”, defendeu Max Kunkel.
“O que nós vimos no curso dos últimos 6 a 12 meses é que há um foco massivo em tecnologia, mas relativamente pouca atividade quando se trata de saúde e uma razão aqui é, é claro, a incerteza por causa dos preços nos EUA”, disse.
“Poderá haver uma surpresa positiva vinda da geopolítica e da política no próximo ano”
O Chief Investment Officer – Global Family and Institutional Wealth antevê dois eventos que serão positivos em 2026, as eleições intercalares e os 250 anos dos Estados Unidos que deverão ser causas de menor instabilidade política e económica.
O gestor do UBS acredita que a administração norte-americana tudo fará para evitar instabilidade económica no próximo ano. “Poderá haver uma surpresa positiva vinda da geopolítica e da política no próximo ano”, diz Max Kunkel.
“Porque se considerarmos as dificuldades económicas que resultam das incertezas geopolíticas, se houvesse um risco de agravamento, os bancos centrais reduziriam as taxas de juro mais rapidamente do que o actualmente esperado. O que não está a ser contemplado”, referiu.
O segundo fator é o ouro que continua a ser um ótimo ativo refúgio contra incertezas geopolíticas e fiscais, os bancos centrais ainda estão a diversificar e a sair dos títulos do tesouros para o ouro”, salienta. Já o dólar, “ainda está num caminho de enfraquecimento face ao euro, e vai continuar. A nossa estimativa é que o cross euro/dólar esteja nos 1,20 dólares”.
Como os governos lidam com os níveis de dívida cada vez maiores?
A segunda pergunta é, como os governos lidam com os níveis de dívida cada vez maiores? “Projeções do Fundo Monetário Internacional, apontam para que em 2030, os níveis de dívida sobre o PIB do G7 serão 137%. E a pergunta é sempre, como eles vão pagar essa dívida? A resposta curta é, é claro, que eles não vão pagar. A pergunta mais importante é, realmente, saber se ainda conseguem pagar toda essa dívida e isso é sobre o serviço da dívida. À primeira vista poderia ser através do aumento dos impostos e corte na despesa pública. Mas politicamente isso é bem difícil de implementar”, disse lembrando que um default é altamente impossível quando se trata das grandes economias”.
“O nosso cenário base é que acabaremos com uma solução mista de grande repressão financeira e muito baixas, perto de negativas, taxas de juro ajustadas à inflação. O que significa repressão financeira, neste caso? Há, na verdade, duas maneiras de pensar sobre isso. A primeira é que ter os reguladores a encorajar os bancos, empresas de seguros, os fundos de pensão a comprar mais dívida soberana; e a segunda é que tentar conter a riqueza privada, porque lembre-se sempre, quando dívida de governo está em níveis muito elevados, a riqueza privada está em níveis muito mais altos. Então os Governos quererão tentar acesso a isso. Como? Encorajando os investidores privados a comprar dívida de governo local“, disse Max Kunkel.
Sobre a situação económica em França e as descidas do rating do Estado, o gestor do UBS disse que “pensamos que a França, efetivamente, vai estagnar. Achamos que a situação é problemática em França e é estrutural quando falamos de finanças governamentais. E, como resultado, devemos ver, nos próximos anos, uma continuação do que já vimos nos últimos anos, e que é a constante luta entre os partidos políticos, com downgrades de rating, mas não muito agressivos. A descida do rating de França é um filme muito lento, na nossa visão, sem intervenção da BCE”.
A gestor do UBS diz que o mercado do rendimento fixo ainda vai ser bom em 2026.




