Avaliação por múltiplos de EBITDA

Como o resultado operacional se relaciona com a avaliação de empresas?

No contexto de Fusões e Aquisições (M&A), a avaliação por múltiplos de EBITDA é um dos métodos mais utilizados na compra e venda de empresas. A sua popularidade resulta da simplicidade de aplicação e da possibilidade de comparar, de forma rápida, o valor de um negócio com o de empresas semelhantes, refletindo a capacidade operacional da empresa para gerar resultados.

Princípios essenciais da avaliação por múltiplos de EBITDA

Antes de aplicar qualquer múltiplo ou construir modelos de avaliação, é fundamental compreender os princípios que sustentam este método e que garantem uma leitura correta do valor económico do negócio.

“Se um negócio precisa de muitas explicações ou de muitos modelos para justificar o seu valor, provavelmente é porque esse negócio não vale a pena.”
José Cardoso Botelho – CEO, Vanguard Properties

Numa avaliação baseada em múltiplos de EBITDA, existem duas regras fundamentais que devem ser claramente compreendidas:

  1. O EBITDA mede exclusivamente a atividade operacional do negócio.
  2. Os ativos não operacionais não são incluídos no múltiplo.

Na prática, a avaliação incide apenas sobre o negócio operacional. No final do processo, adiciona-se o valor dos ativos não operacionais, por exemplo, caixa excedentária ou imóveis, e deduz-se a dívida financeira remunerada, como empréstimos bancários.

EBITDA = negócio operacional

O múltiplo (por exemplo, 6x EBITDA) aplica-se exclusivamente à atividade core da empresa.

Tudo o que não é necessário para gerar o EBITDA:

  • não entra no EBITDA;
  • não deve ser valorizado pelo múltiplo.

Este princípio torna-se particularmente relevante quando se analisa a forma como determinados ativos, nomeadamente os imóveis, devem ser tratados no processo de avaliação, evitando erros frequentes que podem distorcer o valor do negócio.

Tratamento dos imóveis na avaliação

O tratamento dos imóveis é um dos pontos mais sensíveis numa avaliação por múltiplos de EBITDA. Uma abordagem incorreta pode conduzir a sobreavaliações ou a incoerências entre o EBITDA utilizado e os ativos considerados no valor final da empresa. Por isso, é essencial distinguir claramente entre imóveis operacionais e imóveis não operacionais e definir, desde o início, o seu enquadramento na avaliação.

a) Imóveis operacionais (necessários à atividade)

Os imóveis operacionais são aqueles que são indispensáveis ao funcionamento do negócio e à geração do EBITDA. Sem estes ativos, a empresa não conseguiria desenvolver a sua atividade nas condições atuais.

Alguns dos exemplos típicos são:

  • fábricas;
  • armazéns;
  • a sede onde a empresa desenvolve a sua atividade.

Independentemente do tipo de imóvel, o seu tratamento na avaliação deve assegurar que não existe duplicação de valor entre o EBITDA considerado e os ativos incluídos no cálculo final.

Para isso, existem duas abordagens possíveis Escolhe-se uma, nunca ambas.

Opção A – abordagem mais comum em M&A

Vejamos a seguir os principais aspetos desta abordagem:

  • O imóvel fica fora da avaliação do negócio;
  • A empresa passa a pagar uma renda de mercado;
  • O EBITDA é normalizado, e reflete o custo da renda;
  • Aplica-se o múltiplo ao EBITDA ajustado.

Isto significa que portanto que, o imóvel pode permanecer com o vendedor, ser vendido separadamente ou ser arrendado ao comprador. Por outro lado, poderá também optar-se pela opção B. Vejamos a seguir, os seus detalhes.

Opção B – abordagem menos utilizada

Vejamos a seguir os principais aspetos desta abordagem:

  • O imóvel permanece dentro da empresa;
  • Não se valoriza através de múltiplos;
  • O valor de mercado do imóvel acrescenta-se ao Enterprise Value.

Esta opção exige especial cuidado na coerência entre o EBITDA utilizado e os ativos considerados na avaliação, garantindo que o imóvel não influencia simultaneamente o resultado operacional e o valor patrimonial atribuído ao negócio.

Por norma, um erro comum a evitar prende-se com a aplicação do múltiplo ao EBITDA e, adicionalmente, somar o valor do imóvel sem proceder ao respetivo ajuste do EBITDA, o que conduz a uma duplicação artificial do valor.

b) Imóveis não operacionais

Os imóveis não operacionais são aqueles que não são necessários para a geração do EBITDA nem para o funcionamento corrente da atividade. Apesar de integrarem o património da empresa, estes ativos não contribuem para o desempenho operacional e, por isso, tratam-se de forma distinta na avaliação.

Alguns dos exemplos típicos são:

  • terrenos vazios;
  • imóveis arrendados a terceiros;
  • imóveis sem ligação direta à atividade do negócio.

Apesar de integrarem o património da empresa e poderem ter um valor relevante, estes imóveis não influenciam a capacidade operacional de gerar EBITDA. Por esse motivo, o seu enquadramento na avaliação deve obedecer a critérios distintos e específicos, assegurando uma separação clara entre atividade operacional e ativos patrimoniais.

Tratamento adequado

Para assegurar uma avaliação consistente e alinhada com a prática de mercado, os imóveis não operacionais devem tratam-se da seguinte forma:

  • ficam fora do EBITDA;
  • não se valorizam através do múltiplo;
  • se avaliam ao respetivo valor de mercado;
  • se adicionam, no final, ao valor da empresa.

Este tratamento permite isolar corretamente o valor do negócio operacional do valor dos ativos patrimoniais que não participam na geração de resultados.

A mesma lógica de separação aplica-se a outros elementos patrimoniais que, embora relevantes para o acionista, não são indispensáveis à operação corrente, como é o caso da caixa não necessária à atividade.

Caixa não necessária à operação (excess cash)

No âmbito de uma avaliação por múltiplos de EBITDA, a análise da posição de caixa assume particular relevância, uma vez que nem toda a liquidez existente na empresa está diretamente relacionada com a geração do resultado operacional. Distinguir corretamente a caixa necessária à operação da caixa excedentária é essencial para evitar distorções no valor final da empresa.

O que é caixa excedentária?

A caixa excedentária corresponde às disponibilidades financeiras que ultrapassam o nível considerado normal e prudente para assegurar:

  • o fundo de maneio;
  • os pagamentos correntes;
  • as necessidades operacionais regulares da atividade.

Trata-se, portanto, de recursos financeiros que não são indispensáveis à continuidade do negócio nem à geração do EBITDA.

Exemplo ilustrativo:
  • Caixa total: 3,0 M€
  • Caixa necessária à atividade operacional: 1,0 M€
  • Caixa excedentária: 2,0 M€
Como é tratada na avaliação?

Após a sua correta identificação, a caixa excedentária deve ser tratada de forma autónoma face ao negócio operacional.

Respeitando os princípios fundamentais da avaliação por múltiplos:

  • não integra o EBITDA;
  • não é valorizada através do múltiplo;
  • é acrescentada, na totalidade, ao equity value.

Esta abordagem reflete o facto de a caixa excedentária representar valor direto para o acionista, independentemente do desempenho operacional da empresa.

Na prática, isto significa que:

1€ de caixa excedentária corresponde a 1€ de valor adicional para o acionista

Fórmula prática utilizada em transações

De forma simplificada, a avaliação por múltiplos de EBITDA segue uma lógica clara e amplamente aceite na prática de Fusões e Aquisições. O primeiro passo consiste na determinação do Enterprise Value, que reflete o valor do negócio exclusivamente na sua vertente operacional.

Enterprise Value (EV) = EBITDA normalizado × múltiplo

Uma vez apurado o Enterprise Value, procede-se aos ajustamentos necessários para refletir a realidade patrimonial e financeira da empresa, isolando os elementos que não fazem parte do negócio operacional.

Equity Value = caixa excedentária (valor de imóveis não operacionais) − dívida financeira líquida

Este segundo passo permite chegar ao valor efetivamente atribuível aos acionistas.

Para tornar mais clara a aplicação prática dos conceitos anteriormente descritos, considere-se o seguinte exemplo simplificado de avaliação:

  • EBITDA normalizado: 2,0 M€
  • Múltiplo aplicado: 6x

Com base nestes pressupostos, o Enterprise Value do negócio é calcula-se da seguinte forma:

EV = 12,0 M€

Após determinarmos o Enterprise Value, ajustamos os ativos não operacionais e a estrutura de financiamento da empresa para apurar o valor final para os acionistas:

  • Caixa excedentária: +2,0 M€
  • Imóvel não operacional: +3,0 M€
  • Dívida financeira líquida: −4,0 M€

Considerando estes ajustamentos, o valor económico atribuível ao capital próprio é o seguinte:

Equity Value = 13,0 M€

Regra de ouro em M&A

O EBITDA multiplicado pelo múltiplo avalia o negócio. Tudo o resto ajusta-se depois.

Avaliação orientada para transações na Bolsa Portugal Negócios

Na Bolsa Portugal Negócios, aplicamos a avaliação por múltiplos de EBITDA com foco transacional, distinguindo rigorosamente o negócio operacional, os ativos não operacionais e a estrutura de financiamento. Esta abordagem permite construir avaliações realistas, comparáveis e alinhadas com a prática de mercado, apoiando processos de negociação mais eficientes e decisões estratégicas sustentadas.

marcopclalmeida

Por

Marco Almeida é proprietário do site Bolsa Portugal Negócios e, desde 2000, participa, desenvolve e estrutura operações de fusões e aquisições (M&A) como consultor independente.