Comprar uma empresa em funcionamento: riscos que não se podem ignorar
Comprar uma empresa em funcionamento pode ser um atalho para crescer, entrar noutros mercados ou ganhar escala mais depressa. É, porém, um atalho minado. A operação encerra riscos reais, alguns visíveis, outros silenciosos, que exigem leitura atenta antes de qualquer assinatura. Identificá-los e mitigá-los não é prudência excessiva: é sobrevivência do investimento.
Principais riscos na aquisição de uma empresa em funcionamento
Adquirir uma empresa ativa oferece oportunidades estratégicas relevantes, mas também expõe o comprador a desafios estruturais. Ignorar esses riscos é caminhar com os olhos fechados.
1 — Erro na avaliação do valor da empresa
Talvez o risco mais decisivo seja pagar mal: pagar demais ou pagar de menos.
A sobreavaliação corrói o retorno do investimento; a subavaliação pode afastar oportunidades estratégicas ou inviabilizar a negociação.
Em Portugal, esta avaliação é influenciada por fatores como:
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as normas contabilísticas aplicáveis;
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o goodwill;
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os ativos intangíveis, muitas vezes difíceis de quantificar.
Para reduzir este risco, é essencial recorrer a consultores financeiros independentes e cruzar várias metodologias de avaliação, nomeadamente:
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fluxo de caixa descontado;
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múltiplos de mercado;
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análise patrimonial ajustada.
Só uma leitura cruzada permite aproximar-se do valor real da empresa e avançar com uma base sólida para as fases seguintes da aquisição.
2 — Dificuldades de integração cultural e operacional
Nem tudo o que funciona no papel resiste ao contacto humano. Diferenças na cultura organizacional, nos estilos de liderança ou nos sistemas internos podem gerar conflitos, resistência e perda de produtividade — e, em casos extremos, fuga de talento.
A mitigação deste risco exige um plano de integração claro e deliberado:
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constituição de equipas mistas, com colaboradores de ambas as organizações;
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comunicação transparente dos objetivos, impactos e benefícios da aquisição.
A integração não é um detalhe operacional; é o lugar onde muitas aquisições falham em silêncio.
3 — Problemas legais e de conformidade
Há riscos que não aparecem nos relatórios financeiros. Questões jurídicas e regulatórias, muitas vezes ocultas, podem transformar uma boa aquisição num problema prolongado.
Em Portugal, surgem frequentemente irregularidades:
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fiscais: impostos em atraso ou obrigações mal registadas;
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laborais: contratos irregulares, dívidas a trabalhadores ou litígios pendentes;
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licenciamento: ausência de autorizações essenciais à atividade;
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incumprimento do RGPD, com impacto financeiro e reputacional.
A única defesa eficaz é uma due diligence jurídica completa, conduzida por advogados especializados em M&A e direito societário português, antes da conclusão da transação.
4 — Passivos ocultos
Os passivos que não constam das contas — dívidas fiscais latentes, contingências laborais, garantias bancárias, processos judiciais — são um risco sério e frequente.
Podem:
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reduzir drasticamente o fluxo de caixa;
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comprometer a liquidez;
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afetar a reputação da empresa adquirente.
Mitigar este risco passa por auditorias financeiras independentes e por uma negociação contratual rigorosa, com cláusulas de indemnização e garantias que cubram responsabilidades emergentes após a aquisição.
Minimizar riscos para maximizar o sucesso
A compra de uma empresa em funcionamento pode ser uma poderosa alavanca de crescimento, mas só o é quando conduzida com método e lucidez. Para proteger o investimento e aumentar a probabilidade de sucesso, é fundamental:
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realizar uma due diligence abrangente — financeira, legal e operacional;
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planear cuidadosamente a integração cultural e organizacional;
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negociar salvaguardas contratuais para riscos ocultos e imprevistos.
Quando feita com análise fria e atenção aos detalhes, a aquisição deixa de ser apenas uma transação financeira. Torna-se um gesto estratégico: um passo firme rumo a crescimento sustentável, inovação e reforço competitivo no mercado português.




