Portugal Ventures conclui desinvestimento na Perceive3D após aquisição pela Smith+Nephew

A Portugal Ventures concluiu o processo de desinvestimento na Perceive3D, empresa portuguesa de tecnologia médica adquirida integralmente, em 2020, pela multinacional britânica Smith+Nephew. A operação assinala o encerramento do ciclo de investimento da sociedade de capital de risco numa startup que nasceu na Universidade de Coimbra e cuja tecnologia alcançou agora um novo marco regulatório nos Estados Unidos, com a autorização da Food and Drug Administration (FDA) para o sistema TESSA.

Da investigação académica ao investimento de capital de risco

Fundada por João P. Barreto e Rui Melo, a Perceive3D surgiu como uma spin-off da Universidade de Coimbra, com uma proposta centrada no desenvolvimento de soluções tecnológicas para a área da saúde. A empresa especializou-se em visão por computador, inteligência artificial e realidade aumentada aplicadas à cirurgia minimamente invasiva, desenvolvendo ferramentas destinadas a melhorar a precisão e a orientação dos procedimentos cirúrgicos.

O percurso da empresa começou a ganhar dimensão com a entrada da Portugal Ventures no seu capital, em 2013, numa fase inicial de desenvolvimento, conhecida como pre-seed.

O investimento permitiu apoiar a evolução da tecnologia, num período em que a transformação de conhecimento científico em soluções comercialmente viáveis exigia recursos financeiros, capacidade de investigação e validação junto de potenciais utilizadores.

Ao longo dos anos, a sociedade de capital de risco do Grupo Banco Português de Fomento acompanhou diferentes etapas do desenvolvimento da Perceive3D, incluindo a proteção da propriedade intelectual, a validação clínica e a realização dos primeiros projetos-piloto em contexto hospitalar.

Este apoio contribuiu para preparar a empresa para uma fase de maior maturidade tecnológica e para a aproximação a potenciais parceiros internacionais, num setor particularmente exigente em termos de desenvolvimento, certificação e aprovação regulatória.

Smith+Nephew adquiriu a totalidade da empresa em 2020

Um dos momentos determinantes no percurso da Perceive3D ocorreu em 2020, quando a Smith+Nephew adquiriu integralmente a empresa portuguesa. A multinacional britânica, especializada em tecnologia médica e com presença global nas áreas da ortopedia e artroscopia, passou a integrar a tecnologia desenvolvida pela startup no seu universo empresarial.

A aquisição representou uma nova etapa para a Perceive3D, permitindo acelerar o desenvolvimento industrial e regulatório das suas soluções.

A integração numa organização internacional com experiência no setor da tecnologia médica proporcionou um contexto diferente para a evolução da inovação desenvolvida em Portugal.

A operação ilustra também uma das possibilidades de crescimento para empresas tecnológicas em fases iniciais: o desenvolvimento de conhecimento especializado com o apoio de investidores de capital de risco, seguido da integração numa estrutura empresarial com maior capacidade de investimento, distribuição e acesso a mercados internacionais.

Embora o valor da aquisição não tenha sido divulgado, a transação constitui um exemplo de aquisição internacional de uma empresa portuguesa com origem no ecossistema académico e tecnológico nacional.

Tecnologia TESSA obtém autorização da FDA nos Estados Unidos

A evolução da tecnologia da Perceive3D conheceu recentemente outro marco relevante com a autorização, pela Food and Drug Administration (FDA), do sistema TESSA — Tracking Enabled Spatial Surgery Assistant , desenvolvido a partir da tecnologia originalmente criada pela empresa portuguesa e atualmente integrado no portefólio da Smith+Nephew.

A solução combina tecnologias de navegação espacial e acompanhamento de movimentos para apoiar procedimentos de artroscopia, permitindo transportar o planeamento pré-operatório para o contexto cirúrgico em tempo real.

De acordo com a informação divulgada pela Portugal Ventures, a primeira aplicação clínica do sistema está direcionada para a reconstrução artroscópica do ligamento cruzado anterior do joelho. A abordagem, designada pela empresa como «Cirurgia Espacial», procura apoiar os profissionais de saúde na orientação intra-articular durante a intervenção.

A autorização da FDA foi concedida através da via regulatória De Novo, um mecanismo utilizado nos Estados Unidos para determinados dispositivos médicos inovadores que não dispõem de um dispositivo equivalente previamente classificado como referência.

Este reconhecimento regulatório representa um passo importante na trajetória de desenvolvimento da tecnologia, sobretudo tendo em conta as exigências associadas à introdução de dispositivos médicos no mercado norte-americano.

Portugal Ventures encerra ciclo de investimento na startup portuguesa

Com a conclusão do desinvestimento, a Portugal Ventures encerra o ciclo de participação na Perceive3D, iniciado em 2013. O anúncio foi divulgado a 29 de outubro de 2026 e surge depois de a tecnologia desenvolvida pela empresa ter alcançado um novo marco de validação regulatória nos Estados Unidos.

Para Marco Neves, presidente do conselho de administração da Portugal Ventures, a integração da tecnologia num grupo internacional e a respetiva autorização pela FDA demonstram o impacto que o investimento de capital de risco pode ter na transformação da investigação científica em inovação com aplicação prática.

Também João P. Barreto, fundador e diretor executivo e científico da Perceive3D, destacou a complexidade do percurso entre a investigação inicial e a introdução de uma tecnologia médica no mercado. O responsável descreveu a evolução entre os níveis de maturidade tecnológica TRL 1 e TRL 9 como uma experiência particularmente exigente e com poucos precedentes em Portugal.

O percurso contou ainda com o contributo da Universidade de Coimbra, da Portugal Ventures, enquanto principal investidor, e da Smith+Nephew, que adquiriu a empresa antes da comercialização da tecnologia.

Por sua vez, Amílcar Falcão, reitor da Universidade de Coimbra, destacou a importância deste resultado para a valorização da investigação desenvolvida na instituição, considerando que o caso demonstra a capacidade de transformar conhecimento académico em inovação com alcance internacional.

Apesar da conclusão do desinvestimento, a Portugal Ventures não divulgou o montante inicialmente aplicado na empresa, o valor associado à saída do capital ou o retorno financeiro obtido com o investimento. Também não foram detalhadas as condições específicas do processo de desinvestimento agora concluído.

Um exemplo de valorização empresarial com origem em Portugal

O percurso da Perceive3D evidencia o papel que o capital de risco pode desempenhar no desenvolvimento de empresas inovadoras, particularmente em setores onde os ciclos de investigação, validação e entrada no mercado são longos e exigentes.

Desde a entrada da Portugal Ventures numa fase pre-seed, em 2013, até à aquisição integral pela Smith+Nephew, em 2020, e à conclusão do desinvestimento anunciada em 2026, a empresa percorreu diferentes etapas de maturidade e internacionalização.

Para o mercado português, este caso demonstra como o investimento em empresas tecnológicas pode criar condições para a valorização de ativos nacionais e despertar o interesse de grupos empresariais internacionais. Mostra também que as operações de fusões e aquisições não se limitam à integração de empresas já consolidadas, podendo representar uma etapa decisiva na evolução de startups que desenvolvem tecnologia diferenciadora.

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