
A entrada das fabricantes chinesas no mercado europeu está a passar para uma nova fase. Depois de conquistarem espaço através da venda de veículos elétricos e eletrificados, os grupos asiáticos estão a aproximar a produção dos consumidores europeus através de aquisições, joint ventures e parcerias industriais.
Espanha está a assumir-se como um dos principais destinos desta estratégia.
A antiga presença de fabricantes como Ford, Nissan, Renault e Seat está a dar lugar a um novo mapa industrial, no qual grupos chineses como Chery, Geely, SAIC, BAIC e Leapmotor estão a estabelecer operações de produção ou parcerias com fabricantes europeus.
Para além da dimensão industrial, o movimento representa uma nova frente de investimento estrangeiro e operações de M&A no setor automóvel europeu.
Geely investe €221 milhões na fábrica da Ford em Almussafes
Um dos negócios mais recentes envolve a chinesa Geely, que vai investir €221 milhões para adquirir uma participação de 34% numa nova joint venture com a Ford destinada à exploração da fábrica de Almussafes, em Valência.
A operação atribui à sociedade conjunta uma avaliação de aproximadamente €650 milhões e prevê que a nova entidade assuma formalmente a gestão da unidade em 2027.
A fábrica deverá produzir cinco modelos, combinando veículos já associados à unidade com novos modelos previstos para os próximos anos.
O negócio mostra como a entrada chinesa na Europa não está limitada à construção de novas fábricas de raiz.
Em muitos casos, a estratégia passa por assumir posições em unidades industriais já existentes, aproveitar infraestruturas, cadeias de fornecimento e mão de obra qualificadas e, dessa forma, acelerar a entrada no mercado europeu.
Chery recupera antiga fábrica da Nissan com a Ebro

Outro dos exemplos mais relevantes encontra-se em Barcelona. A chinesa Chery estabeleceu uma parceria com a espanhola Ebro Motors para recuperar a antiga fábrica da Nissan na Zona Franca de Barcelona.
A estrutura produtiva é controlada em 60% pela Ebro e em 40% pela Chery, tendo as empresas investido mais de €150 milhões na transformação da unidade desde o início da operação.
A fábrica iniciou a produção em 2024 e está agora a aumentar a sua capacidade. Em julho de 2026, a Ebro colocou em funcionamento uma nova linha de produção que acrescenta capacidade para 250 veículos por dia.
A parceria deverá também permitir à Chery produzir em Barcelona modelos das marcas Omoda e Jaecoo, reforçando a localização da produção chinesa dentro da União Europeia.
O caso é particularmente relevante do ponto de vista de M&A porque demonstra uma das principais vias de entrada dos grupos asiáticos na Europa: associação com empresas locais em vez da criação de uma operação completamente autónoma.
SAIC prepara investimento de €200 milhões na Galiza
A estratégia estende-se também ao noroeste de Espanha.
A chinesa SAIC, proprietária da marca MG, anunciou um investimento de €200 milhões para instalar em Ferrol, na Galiza, o seu primeiro centro industrial e logístico de veículos elétricos na Europa.
O projeto prevê uma capacidade anual de produção de cerca de 120 mil veículos e poderá criar aproximadamente 2.300 postos de trabalho.
A escolha de uma região com infraestruturas portuárias e tradição industrial permite à fabricante aproximar a produção dos mercados europeus e reduzir a dependência da importação direta de veículos produzidos na China.
Leapmotor e Stellantis aproximam capital chinês e indústria europeia
A expansão chinesa também está a acontecer através de alianças com grandes grupos automóveis europeus.
A Stellantis tornou-se, em 2023, o maior acionista individual da chinesa Leapmotor, com uma participação de aproximadamente 21%. As duas empresas criaram posteriormente a Leapmotor International, uma joint venture controlada em 51% pela Stellantis e 49% pela Leapmotor.
Em 2026, as empresas anunciaram uma nova fase da parceria, que prevê o aumento da produção de veículos Leapmotor na fábrica de Saragoça e a possibilidade de transferência da propriedade da fábrica de Villaverde, em Madrid, para a subsidiária espanhola da joint venture.
A operação mostra como o investimento chinês está a entrar na indústria europeia através de participações de capital, joint ventures, transferência de produção e integração de cadeias de fornecimento.
BAIC recupera fábrica da Santana Motors
Em Linares, na Andaluzia, é a chinesa BAIC que está a relançar a atividade da antiga fábrica da Santana Motors.
O grupo recuperou a produção na unidade e começou a introduzir veículos para montagem em Espanha, numa estratégia que permite aproveitar uma infraestrutura industrial existente e uma região com tradição automóvel.
O padrão repete-se: em vez de construir exclusivamente novas unidades industriais, as fabricantes chinesas estão a procurar ativos industriais europeus que podem ser reativados, adaptados ou integrados nas suas cadeias de produção.
Porque é que Espanha está a atrair investimento chinês?
A localização espanhola não é apenas uma questão de capacidade industrial.
A produção dentro da União Europeia permite às fabricantes chinesas aproximar-se dos consumidores, utilizar fornecedores europeus e, sobretudo, reduzir a exposição às tarifas aplicadas aos veículos elétricos produzidos na China.
A expansão acontece num momento em que as fabricantes chinesas estão a acelerar a internacionalização. Em julho de 2026, as exportações automóveis chinesas aumentaram 88,2% em termos homólogos, enquanto as vendas no mercado doméstico continuaram a cair.
A necessidade de encontrar novos mercados torna a Europa cada vez mais importante para estes grupos.
Ao mesmo tempo, a pressão regulatória europeia está a incentivar a localização da produção.
É neste contexto que Espanha ganha importância como plataforma industrial.
Uma nova vaga de M&A no setor automóvel europeu
Mais do que uma corrida à construção de fábricas, o que está a acontecer é uma transformação da forma como as fabricantes chinesas entram no mercado europeu.
As operações combinam diferentes modelos:
- Aquisições e entradas no capital, como a participação da Stellantis na Leapmotor.
- Joint ventures, como a parceria entre Geely e Ford.
- Parcerias industriais, como Ebro e Chery.
- Recuperação de fábricas existentes, como as antigas unidades da Nissan e Santana Motor.
- Novos investimentos industriais, como o projeto da SAIC na Galiza.
Este movimento coloca o setor automóvel no centro de uma nova vaga de M&A transfronteiriço, com empresas chinesas a procurar ativos, parceiros e capacidade produtiva na Europa.
Segundo dados citados pelo Financial Times, as empresas chinesas já adquiriram mais de 130 empresas europeias de componentes automóveis desde meados dos anos 2000, sobretudo na Alemanha e em França.
A tendência sugere que a próxima fase da expansão chinesa poderá ultrapassar a simples venda de automóveis e atingir áreas como componentes, baterias, tecnologia, logística e produção industrial.
O que significa para Portugal?
A transformação do setor automóvel espanhol também merece atenção em Portugal.
A proximidade geográfica, as cadeias de fornecimento ibéricas e a existência de uma indústria automóvel portuguesa integrada no mercado europeu colocam a Península Ibérica numa posição relevante para futuros investimentos.
Para empresas portuguesas ligadas à indústria automóvel, componentes, logística e tecnologia, o aumento da presença chinesa pode significar tanto novas oportunidades de parceria e investimento como maior pressão competitiva.
A questão deixa, por isso, de ser apenas saber quantos automóveis chineses serão vendidos na Europa.
O verdadeiro movimento está a acontecer nos bastidores: quem vai produzir esses veículos, quem controla as fábricas e que empresas europeias poderão tornar-se parceiros, fornecedores ou alvos de futuras operações de M&A?
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