
O América-MG recebeu uma proposta de um fundo árabe para a aquisição de 80% da Sociedade Anónima de Futebol (SAF) do clube. A operação, apresentada pela Global Seven Eleven Energy Oil FZ-LLC, prevê um investimento mínimo de R$ 800 milhões ao longo de dez anos, podendo atingir cerca de R$ 1,03 bilhão.
A proposta coloca em cima da mesa uma operação que combina aquisição de participação societária, investimento no futebol, reestruturação de passivos e exploração de ativos imobiliários. No entanto, o negócio ainda não está fechado e os termos apresentados pelos investidores foram alvo de uma análise técnico-jurídica com várias reservas.
A Global Seven Eleven Energy Oil FZ-LLC é identificada nas informações disponíveis como uma empresa ligada ao setor da exploração de petróleo, com presença em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e no Gana. Até ao momento, não foram encontradas informações públicas suficientemente detalhadas que permitam traçar um histórico internacional mais amplo da empresa ou de anteriores operações semelhantes.
Fundo árabe quer adquirir 80% da SAF do América-MG
Segundo o Memorando de Entendimentos (MoU) analisado pelo clube, o fundo árabe pretende ficar com 80% do capital da SAF do América-MG.
A proposta prevê um aporte inicial de R$ 20 milhões, dividido em quatro parcelas de R$ 5 milhões. O restante do compromisso financeiro está associado a uma cláusula de “Geração de Recursos”, que estabelece uma meta de R$ 800 milhões durante dez anos.
É precisamente neste ponto que surge uma das principais questões levantadas pela análise jurídica. Parte significativa do montante contabilizado como investimento poderia resultar das próprias receitas geradas pelo clube, incluindo patrocínios, contratos comerciais e outras receitas operacionais.
Com receitas anuais projetadas na ordem dos R$ 70 milhões, o parecer considera que uma parcela relevante dos R$ 800 milhões poderia ser alcançada através da própria atividade do América, reduzindo o montante de capital externo efetivamente colocado pelos investidores.
Para uma operação de aquisição de uma participação maioritária, esta diferença entre capital efetivamente aportado e recursos gerados pelo próprio negócio torna-se particularmente relevante na avaliação da proposta.
Operação inclui dívida, centros de treino e ativos imobiliários

A proposta do fundo árabe não se limita à entrada no capital da SAF.
Entre as condições apresentadas está também o compromisso de assumir dívidas e outras obrigações do América até ao limite de R$ 197 milhões. Caso o passivo ultrapasse esse valor, a diferença permaneceria sob responsabilidade da associação civil.
O negócio contempla ainda os ativos imobiliários do clube. O CT Lanna Drumond poderá ser transferido para a SAF, estando prevista a possibilidade de alienação posterior do ativo, desde que seja construído e colocado em funcionamento um novo centro de treinos na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Já o CT de Santa Luzia poderá integrar um projeto imobiliário conjunto entre o América e os investidores. Segundo os termos divulgados, os investidores teriam 80% do Valor Geral de Vendas (VGV) do projeto, enquanto o clube manteria os restantes 20%.
A proposta prevê ainda a construção de um novo centro de treinos, cuja implementação estaria associada à eventual transferência do atual CT Lanna Drumond.
Independência pode entrar na operação por até 70 anos
Outro dos ativos relevantes na negociação é a Arena Independência.
« A proposta prevê a cedência do estádio à SAF por 35 anos, com possibilidade de renovação por mais 35, o que poderia levar a exploração do ativo para um período total de 70 anos. Os resultados económicos líquidos da exploração seriam repartidos em partes iguais entre o América e os investidores.
Em contrapartida, os investidores assumiriam as responsabilidades relacionadas com investimento, manutenção, operação e exploração do estádio.
O modelo, contudo, também foi questionado no parecer técnico-jurídico, nomeadamente pela ausência inicial de um investimento mínimo definido para a exploração do Independência. A recomendação passa por renegociar os termos, estabelecer um valor mínimo anual e assegurar mecanismos de auditoria.
Para além da arena, o projeto prevê R$ 13 milhões para a construção de um Museu do América no Independência.
Parecer identifica 25 riscos na proposta do fundo árabe
A operação ganhou um novo capítulo depois de o Conselho Consultivo do América analisar o Memorando de Entendimentos e o parecer técnico-jurídico preparado sobre a proposta.
A análise identificou 25 pontos considerados de risco e recomendou que o MoU não fosse assinado na sua forma atual. Entre as principais exigências estão a apresentação de garantias reais e bancárias, a aquisição escalonada das ações e a criação de marcos anuais auditados para acompanhar os investimentos.
O clube também pretende rever as condições relacionadas com os centros de treino e com a exploração do Independência.
Ou seja, apesar de a proposta do fundo árabe poder representar uma operação de investimento superior a R$ 1 bilhão, o negócio ainda depende da resolução de várias questões contratuais, financeiras e patrimoniais.
O que está em causa na eventual aquisição da SAF?
Para o fundo árabe, a operação permitiria assumir uma posição de controlo sobre o futebol do América-MG e participar na exploração de diferentes ativos associados ao clube.
Para o América, a entrada de um investidor estratégico poderá representar uma fonte de capital para o futebol, para a formação, para o futebol feminino e para a reorganização financeira da estrutura.
A proposta inclui, de acordo com as informações divulgadas, a possibilidade de construção de um estádio com capacidade para cerca de 15 mil pessoas, destinado ao futebol feminino e às categorias de base, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
O projeto também prevê uma maior aposta na formação e no desenvolvimento de jogadores, incluindo a possibilidade de criar ligações entre o futebol brasileiro e o mercado árabe.
Ainda assim, a operação terá de ultrapassar a fase de análise e negociação. O fundo árabe deverá apresentar as garantias necessárias e o América pretende recorrer a uma entidade jurídica sediada no Dubai para analisar a documentação apresentada pelos potenciais investidores.
Até que essas verificações sejam concluídas e os contratos definitivos sejam assinados, não existe ainda uma aquisição concretizada da SAF.
Uma operação que vai além do futebol
A eventual entrada da Global Seven Eleven Energy Oil FZ-LLC no América-MG mostra como as operações de M&A no desporto podem envolver muito mais do que a compra de uma participação numa empresa.
Neste caso, estão simultaneamente em discussão o controlo de uma SAF, compromissos de investimento plurianuais, passivos financeiros, centros de treino, exploração de um estádio e projetos imobiliários.
É precisamente esta combinação de capital, ativos e estratégia que torna a operação relevante para o mercado de fusões e aquisições, mesmo estando ainda dependente de negociações e de uma eventual contraproposta do clube.
Na Bolsa Portugal Negócios acompanhamos as principais operações de investimento, aquisição e venda de empresas, ajudando empresários e investidores a encontrar oportunidades e a compreender melhor o mercado de M&A. Se está a avaliar a compra ou venda de uma empresa, conheça as soluções da Bolsa Portugal Negócios e encontre o próximo negócio.

