Lufthansa assina acordo para adquirir até 49,9% da TAP por 1.201 milhões de euros e prepara expansão internacional

A Lufthansa formalizou, a 3 de novembro de 2026, o contrato para adquirir uma participação de até 49,9% na TAP Air Portugal, num negócio que poderá atingir 1.201 milhões de euros e representa um dos movimentos mais relevantes do mercado de fusões e aquisições em Portugal. A operação marca uma nova etapa no processo de privatização da companhia aérea portuguesa e integra a estratégia de expansão internacional do grupo alemão, que pretende reforçar a sua presença nas ligações entre a Europa, a América do Sul e, em particular, o Brasil.

O acordo foi assinado em Lisboa, no Campus TAP, com a presença do primeiro-ministro, Luís Montenegro, do ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, e do presidente executivo da Lufthansa, Carsten Spohr. A concretização da aquisição permanece dependente das aprovações regulamentares necessárias, nomeadamente das autoridades europeias da concorrência.

A entrada da Lufthansa no capital da transportadora portuguesa representa mais do que uma alteração na sua estrutura acionista. Para o grupo alemão, a operação permite aceder a uma rede internacional de destinos complementares à sua atividade, reforçar a posição competitiva no mercado transatlântico e desenvolver Lisboa como um novo centro estratégico de operações.

Primeira fase da privatização prevê entrada da Lufthansa com 44,9% do capital

Nos termos do acordo assinado, a Lufthansa deverá adquirir inicialmente 44,9% do capital social da TAP, por um preço de compra de 1.025 milhões de euros. Os restantes 5% ficam reservados aos trabalhadores da companhia aérea, que poderão exercer o respetivo direito de aquisição em 2027.

Caso os trabalhadores não subscrevam integralmente esta participação, a Lufthansa poderá adquirir as ações remanescentes, elevando a sua posição até 49,9% do capital. Considerando esta possibilidade e a componente adicional prevista contratualmente, o valor total da primeira fase poderá atingir aproximadamente 1.201 milhões de euros.

Nesta etapa, o Estado português mantém 50,1% do capital da transportadora, conservando a maioria acionista e a possibilidade de beneficiar da valorização futura da empresa.

A escolha da Lufthansa foi anunciada pelo Governo a 14 de outubro, depois de uma fase de negociação que envolveu também a Air France-KLM. Os dois grupos apresentaram propostas para entrar no capital da TAP, mas a decisão acabou por favorecer a companhia alemã, cuja proposta foi considerada financeiramente mais robusta e com menor grau de incerteza.

Segundo o Executivo, a oferta da Lufthansa foi até 16% superior à apresentada pela concorrente francesa e contemplou igualmente um plano de desenvolvimento para a companhia aérea, com reforço da frota, expansão de rotas e novos investimentos em Portugal.

A operação prevê ainda uma eventual segunda fase de privatização, na qual poderá ser alienada a participação maioritária atualmente detida pelo Estado. A proposta apresentada pela Lufthansa contempla, para esta etapa, um pagamento de 863 milhões de euros em dinheiro e uma componente de troca de ações, avaliada pelo Governo em aproximadamente 488 milhões de euros, que poderá colocar o Estado português com cerca de 5% do capital do grupo alemão.

Esta segunda fase não corresponde à transação agora formalizada e dependerá da evolução do processo de privatização e das decisões futuras do Estado português.

Brasil e América Latina estão no centro da estratégia de crescimento alemã

O interesse da Lufthansa na TAP está diretamente relacionado com a complementaridade das redes de destinos das duas companhias aéreas.

O grupo alemão já possui uma presença consolidada no mercado europeu, mas identifica oportunidades de crescimento nas ligações entre a Europa e a América Latina, particularmente no Brasil, onde a TAP dispõe de uma posição relevante.

A companhia portuguesa tem uma rede de ligações históricas com o mercado brasileiro e com os países africanos de língua oficial portuguesa, além de uma presença significativa na América do Norte.

Estes mercados representam uma oportunidade para a Lufthansa expandir a sua oferta sem depender exclusivamente do crescimento orgânico das suas próprias operações.

Carsten Spohr destacou precisamente a reduzida sobreposição entre as redes das duas companhias, considerando que a integração permitirá desenvolver novas ligações e aproveitar melhor as infraestruturas e os recursos existentes.

De acordo com as estimativas apresentadas pelo grupo, a combinação das operações poderá elevar a sua quota de mercado nas ligações entre a Europa e a América Latina de aproximadamente 9% para 20%, aproximando-o dos principais concorrentes internacionais neste segmento.

A Lufthansa pretende igualmente transformar o aeroporto de Lisboa no seu sétimo hub europeu, juntando-o aos centros de operações que já possui, nomeadamente em Frankfurt, Munique, Zurique, Viena, Bruxelas e Roma.

Esta estratégia poderá reforçar a importância de Portugal na rede internacional do grupo, tanto ao nível do transporte de passageiros como da conectividade entre diferentes regiões.

Além do Brasil, a Lufthansa identifica oportunidades de crescimento nas ligações com a América do Norte, África lusófona, Açores, Madeira e Algarve.

Sinergias de 450 milhões de euros sustentam plano de integração das companhias

Um dos elementos mais relevantes da operação é o potencial de criação de sinergias entre as duas companhias.

Segundo a Lufthansa, a aquisição de uma participação minoritária permitirá concretizar a maioria das sinergias identificadas, estimadas em até 450 milhões de euros.

Estas oportunidades estão relacionadas com a integração das redes comerciais, a otimização das ligações aéreas, a utilização mais eficiente das infraestruturas e o reforço da capacidade de distribuição e comercialização de voos.

O grupo alemão considera ainda que uma eventual aquisição de uma participação maioritária poderá permitir acelerar o crescimento da TAP e desbloquear novas oportunidades operacionais e financeiras.

O plano apresentado pelo Governo contempla igualmente o aumento da frota da transportadora portuguesa para 117 aeronaves até 2035, podendo atingir 130 unidades numa fase posterior. Está também prevista a possibilidade de transferência de até oito aeronaves Airbus A350-900 para a TAP depois de 2030.

No território nacional, o projeto de expansão não se limita ao aeroporto de Lisboa. O Governo prevê o reforço das operações no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, onde deverão ficar baseadas oito aeronaves da companhia.

A proposta inclui ainda um investimento de aproximadamente 300 milhões de euros em instalações de manutenção e engenharia aeronáutica em Santa Maria da Feira, associado à criação de cerca de 700 postos de trabalho. Está também prevista a possibilidade de desenvolver uma escola aeronáutica em Tancos.

Estas iniciativas enquadram-se numa estratégia de reforço da presença industrial e operacional do grupo Lufthansa em Portugal, para além da atividade diretamente relacionada com o transporte aéreo.

Da fundação em 1945 à privatização: oito décadas de transformação acionista

Fundada a 14 de março de 1945, a Transportes Aéreos Portugueses nasceu como uma iniciativa pública destinada a desenvolver o transporte aéreo nacional e a estabelecer ligações internacionais.

O primeiro voo comercial foi realizado a 19 de setembro de 1946, entre Lisboa e Madrid. Nos anos seguintes, a companhia expandiu progressivamente a sua rede, estabelecendo ligações a diferentes destinos europeus, africanos e sul-americanos.

Em 1953, a TAP passou a sociedade anónima de responsabilidade limitada, mantendo uma estrutura de capital maioritariamente pública. Em 1975, na sequência da Revolução de Abril e do processo de nacionalizações, passou a ser integralmente controlada pelo Estado português.

Durante várias décadas, a companhia manteve-se no setor público, embora tenham surgido diferentes iniciativas para introduzir capital privado na sua estrutura acionista.

Uma das primeiras tentativas relevantes de privatização ocorreu em 1998, com a negociação de uma parceria com a Swissair, que acabou por não produzir os resultados inicialmente previstos.

Em 2012, uma nova tentativa de venda foi igualmente interrompida, depois de o Governo ter considerado insuficientes as garantias financeiras apresentadas pelo único candidato.

O processo avançou efetivamente em 2015, quando o consórcio Atlantic Gateway, liderado pelo empresário David Neeleman e pelo português Humberto Pedrosa, adquiriu 61% do capital da TAP. O Estado manteve uma participação minoritária, enquanto os trabalhadores conservaram uma posição de 5%.

Contudo, a alteração da orientação política em 2016 conduziu à renegociação do acordo, formalizada em 2017, permitindo ao Estado recuperar uma posição de 50% no capital, enquanto o parceiro privado passou a deter 45%.

A pandemia de Covid-19 voltou a alterar profundamente a estrutura acionista da companhia. A quebra abrupta do tráfego aéreo e as dificuldades financeiras levaram o Estado português a reforçar a sua intervenção, adquirindo a participação de David Neeleman em 2020.

O processo culminou numa nova configuração de controlo público e num plano de reestruturação acompanhado pela Comissão Europeia, que implicou apoios financeiros, ajustamentos operacionais e medidas destinadas a recuperar a sustentabilidade económica da transportadora.

Quatro anos de resultados positivos abrem caminho à entrada de capital privado

A recuperação da TAP foi um dos fatores determinantes para tornar possível o atual processo de privatização.

A intervenção pública durante a pandemia representou um esforço financeiro significativo para os contribuintes portugueses. O Estado injetou aproximadamente 3.200 milhões de euros na companhia, através das medidas de apoio e recapitalização associadas ao processo de reestruturação.

O plano, acompanhado pelas instituições europeias desde 2021, estabeleceu condições para a recuperação da viabilidade financeira da empresa, incluindo medidas de eficiência, redução de custos e reorganização da atividade.

Em julho de 2026, o Governo anunciou a conclusão formal do processo de reestruturação, encerrando uma etapa particularmente exigente para a companhia aérea.

Os resultados financeiros também evidenciaram uma evolução positiva. Em 2025, a TAP registou receitas operacionais de aproximadamente 4.313 milhões de euros e transportou 16,7 milhões de passageiros, alcançando o quarto ano consecutivo de resultados líquidos positivos.

O resultado líquido foi de 4,1 milhões de euros, embora, excluindo o efeito extraordinário associado à atualização das taxas de IRC, o resultado teria atingido aproximadamente 46 milhões de euros.

A companhia apresentou ainda um EBITDA recorrente de 742,9 milhões de euros, com uma margem de 17%, e um EBIT recorrente de 243,4 milhões de euros.

Estes indicadores contribuíram para melhorar a posição da TAP perante potenciais investidores e reforçaram os argumentos do Governo para avançar com a entrada de um parceiro estratégico.

A conclusão do plano de reestruturação, a recuperação da rentabilidade e a estabilização da atividade operacional foram, assim, elementos importantes para a valorização da companhia no atual processo de privatização.

Estado português procura recuperar investimento e preservar influência na companhia

A entrada da Lufthansa no capital da TAP representa também uma oportunidade para o Estado português reduzir a sua exposição financeira à companhia aérea e recuperar parte dos recursos públicos mobilizados nos últimos anos.

O Governo tem defendido que o objetivo da privatização não se limita à obtenção de um encaixe financeiro imediato. A operação pretende assegurar condições para o crescimento sustentável da TAP, através da integração num grupo internacional com maior escala, capacidade de investimento e presença global.

Na eventual segunda fase da privatização, a proposta contempla a alienação da participação maioritária do Estado, com uma componente financeira e outra em ações da Lufthansa.

Esta última poderá permitir a Portugal tornar-se o segundo maior acionista individual do grupo alemão, com aproximadamente 5% do capital, de acordo com os termos apresentados pelo Executivo.

No entanto, a operação prevê também salvaguardas relacionadas com a importância estratégica da TAP para Portugal. Entre os compromissos apresentados estão a manutenção da marca, da sede e do hub de Lisboa, bem como a preservação das ligações aéreas às regiões autónomas.

O modelo de governação proposto contempla ainda a presença maioritária de representantes indicados pelo Estado no conselho de administração da TAP, mantendo uma participação relevante na supervisão estratégica da companhia.

Para Luís Montenegro, a parceria deverá permitir recuperar o investimento realizado pelos contribuintes e assegurar que a TAP continua a desempenhar um papel central na conectividade internacional do país.

Operação poderá redesenhar o futuro da aviação portuguesa

A entrada da Lufthansa no capital da TAP representa um novo capítulo na história empresarial da companhia portuguesa e uma operação de particular relevância para o mercado europeu de aviação.

Para o grupo alemão, a aquisição permite acelerar a expansão internacional através de uma empresa com uma posição consolidada em mercados estratégicos, reduzindo o tempo e os recursos necessários para desenvolver organicamente uma rede de ligações semelhante.

Para Portugal, o desafio passa por transformar a entrada do investidor numa oportunidade de crescimento económico, reforço da conectividade internacional e valorização de um ativo que exigiu um significativo esforço financeiro público.

A concretização da transação dependerá agora da aprovação das autoridades competentes, seguindo-se as etapas previstas no processo de privatização. A eventual alienação da participação maioritária do Estado poderá abrir uma nova fase na estrutura acionista da TAP e aprofundar a integração da companhia no grupo Lufthansa.

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