Antiga fábrica da Mabor em Angola vai a leilão

Antigo complexo industrial da histórica fabricante de pneus entra em processo de alienação pública. Investimento poderá atrair investidores para um dos maiores ativos industriais disponíveis em Luanda

A antiga unidade industrial da Manufactura Angolana de Borracha (Mabor-Angola), localizada no município do Cazenga, em Luanda, foi colocada à venda através de leilão eletrónico promovido pelo Instituto de Gestão de Ativos e Participações do Estado (IGAPE). O ativo tem um preço-base de 6,5 mil milhões de kwanzas, o equivalente a cerca de seis milhões de euros, e integra a fase final do processo de liquidação da empresa.

As candidaturas decorrem até 22 de agosto, através do Portal de Leilão Eletrónico do IGAPE, enquanto a sessão pública de licitação está agendada para 31 de agosto. O imóvel será adjudicado ao concorrente que apresentar a proposta economicamente mais elevada, desde que igual ou superior ao valor base definido.

Um ativo industrial com quase 64 mil metros quadrados

O complexo industrial ocupa uma área aproximada de 63.951 metros quadrados e inclui um conjunto de infraestruturas que, apesar de desativadas há vários anos, continuam a representar um dos maiores ativos industriais disponíveis na capital angolana.

Entre os equipamentos colocados à venda encontram-se:

  • O edifício fabril.
  • Armazéns.
  • Oficinas.
  • Áreas técnicas, como o refeitório, portaria.
  • Diversas construções de apoio à atividade industrial.

Pela dimensão do espaço e pela localização estratégica no município do Cazenga, o imóvel poderá despertar interesse junto de investidores dos setores industrial, logístico ou imobiliário.

De acordo com as condições do concurso, o comprador deverá liquidar 80% do valor da adjudicação no momento da assinatura do contrato-promessa de compra e venda, sendo os restantes 20% pagos num prazo máximo de três meses, mediante apresentação de garantia bancária.

A história da Mabor começou em Portugal

A Mabor é uma das marcas mais emblemáticas da indústria portuguesa de pneus. A empresa foi fundada em 1940, em Vila Nova de Famalicão, por Júlio Anahory de Quental Calheiros, tendo rapidamente assumido um papel pioneiro no desenvolvimento da indústria da borracha em Portugal.

O nome “Mabor” resulta da junção de “Maria” e “Borges”, em homenagem à esposa do fundador, Maria Borges. Ao longo das décadas seguintes, a empresa consolidou-se como um dos principais fabricantes portugueses de pneus, expandindo a sua presença para mercados internacionais e criando unidades produtivas fora do território nacional.

Na década de 1990, a operação portuguesa passou a integrar o grupo alemão Continental, que mantém atualmente em Vila Nova de Famalicão uma das suas mais importantes unidades europeias de produção de pneus.

A filial angolana desempenhou um papel estratégico

A Manufactura Angolana de Borracha foi criada como filial da empresa portuguesa durante o período colonial, iniciando a produção na segunda metade da década de 1960. Beneficiando de um regime de exclusividade para o fabrico de pneus e câmaras de ar destinados ao mercado angolano, a fábrica tornou-se uma referência industrial no país.

A sua importância foi tal que o complexo acabou por dar origem à designação de um dos bairros do município do Cazenga, tornando-se um símbolo do desenvolvimento industrial de Luanda durante esse período.

Contudo, após a independência de Angola, em 1975, a empresa foi nacionalizada. Nos anos seguintes, enfrentou dificuldades crescentes relacionadas com o abastecimento de matérias-primas, a degradação das instalações e a redução da capacidade produtiva, acabando por interromper definitivamente a produção no final da década de 1980.

Venda marca o encerramento definitivo da empresa

Em março de 2023, o Presidente da República de Angola, João Lourenço, aprovou a dissolução e liquidação da Manufactura Angolana de Borracha, considerando que a empresa já não reunia condições para cumprir os objetivos para os quais havia sido criada.

A colocação das antigas instalações em leilão representa agora a etapa final desse processo, permitindo ao Estado alienar um ativo de elevada dimensão que permaneceu sem utilização produtiva durante décadas.

A venda poderá impulsionar novos projetos de investimento no local, com potencial para utilização industrial, logística ou imobiliária, devolvendo uma nova finalidade a um ativo que permaneceu inativo durante várias décadas.

À medida que os processos de privatização e alienação de ativos continuam a ganhar expressão em vários mercados, oportunidades como esta evidenciam o crescente interesse dos investidores por património industrial com potencial de reconversão.

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